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Minha rede social não é privada, a minha vida é.

Você não me conhece, conhece o meu feed.

 

Vivemos em uma época em que a exposição se tornou parte da experiência humana. Compartilhamos momentos, conquistas, opiniões, viagens, refeições e até mesmo fragmentos das nossas dores. No entanto, existe uma diferença fundamental que muitas pessoas parecem esquecer: aquilo que é publicado não representa a totalidade de quem somos.

 

A frase “Você não me conhece, conhece o meu feed” revela uma verdade profunda sobre as relações contemporâneas. Na perspectiva psicanalítica, aquilo que mostramos ao mundo é apenas uma parte da nossa identidade, uma construção consciente que seleciona aspectos específicos da nossa experiência para serem vistos e interpretados pelos outros.

 

Sigmund Freud já apontava que o ser humano é constituído por diferentes camadas psíquicas, muitas delas inacessíveis até para si mesmo. Existe uma distância entre aquilo que pensamos, aquilo que sentimos, aquilo que expressamos e aquilo que os outros percebem. Nas redes sociais, essa distância tende a aumentar.

 

O feed funciona como uma vitrine. Ele apresenta recortes da realidade, não a realidade completa. É uma narrativa construída, organizada e editada. Mesmo quando alguém compartilha sua vulnerabilidade, ainda existe uma escolha sobre o que será mostrado, quando será mostrado e de que forma será mostrado.

 

Jacques Lacan, ao desenvolver o conceito do “eu” como uma construção imaginária, nos ajuda a compreender que a imagem que projetamos nunca corresponde integralmente ao sujeito que somos. Existe sempre uma diferença entre a imagem percebida e a subjetividade real. O perfil digital passa a ocupar, muitas vezes, o lugar desse espelho moderno, onde os outros acreditam enxergar quem somos, quando na verdade observam apenas uma representação.

 

O problema surge quando as pessoas confundem acesso com intimidade.

 

Ver fotos, stories e publicações não significa conhecer alguém. Conhecer exige convivência, escuta, partilha de experiências, compreensão das contradições, dos medos, das inseguranças e dos silêncios. Conhecer alguém requer contato com aquilo que não aparece nas legendas nem nos filtros.

 

A cultura digital criou a ilusão da proximidade. Muitos acreditam possuir informações suficientes para formar julgamentos, opiniões e até diagnósticos sobre a vida alheia. Porém, aquilo que observam é apenas a superfície. A subjetividade humana continua existindo para além das telas.

 

Quando afirmamos que nossa rede social não é privada, mas nossa vida é, estamos a estabelecer um limite saudável entre exposição e intimidade. Estamos a reconhecer que nem tudo precisa ser compartilhado para ser vivido. Nem toda conquista precisa ser anunciada. Nem toda dor precisa ser explicada. Nem todo capítulo da nossa história precisa ser público para ser legítimo.

 

A maturidade emocional também se manifesta na capacidade de preservar espaços internos. A psicanálise nos ensina que existe um valor fundamental naquilo que permanece íntimo, protegido e elaborado longe dos olhares externos. Nem tudo que é verdadeiro precisa ser visível.

 

Por isso, antes de acreditar que conhece alguém através das redes sociais, lembre-se: você conhece uma narrativa, não uma existência completa. Você conhece um recorte, não a totalidade. Você conhece o feed, não necessariamente a pessoa.

 

E talvez seja justamente nesse espaço invisível, longe das curtidas, dos comentários e das aparências, que mora a parte mais autêntica de quem realmente somos.

 

Em tempos de superexposição, preservar a intimidade não é esconder-se. É reconhecer que a profundidade de uma vida humana jamais caberá em uma tela.

 

Elizandra Santos

E-mail: geral@elizandrasantos.com

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@ellizandra_santoos

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