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Existe paz em não ir

Vivemos numa cultura que romantiza a presença. Parece que estar em todos os lugares é sinônimo de importância. Aceitar todos os convites, responder a todas as mensagens, participar de todos os eventos e manter-se constantemente disponível tornou-se, para muitos, uma forma de validar a própria existência.

 

Mas há uma pergunta que poucos fazem:

 

E se a verdadeira paz estiver justamente em não ir?

 

Não ir a lugares onde a sua presença é apenas tolerada.

 

Não ir a conversas que alimentam ansiedade em vez de crescimento.

 

Não ir a relacionamentos onde você precisa diminuir quem é para ser aceito.

 

Não ir a ambientes que exigem o sacrifício da sua saúde emocional em troca de pertencimento.

 

A psicanálise nos ensina que o ser humano possui uma tendência inconsciente à repetição. Sigmund Freud chamou esse fenómeno de compulsão à repetição: muitas vezes insistimos em permanecer em contextos que nos fazem sofrer porque eles reproduzem experiências emocionais antigas que ainda não foram elaboradas.

 

Por isso, algumas pessoas continuam a ir… mesmo quando tudo dentro delas pede para parar.

 

Continuam presentes em relações abusivas.

 

Continuam a frequentar ambientes tóxicos.

 

Continuam a aceitar convites que drenam a energia.

 

Continuam a tentar conquistar aprovação de quem nunca pretendeu oferecer acolhimento.

 

Entretanto, amadurecer é perceber que nem toda porta aberta merece ser atravessada.

 

Carl Gustav Jung dizia que aquilo que não enfrentamos conscientemente acaba por dirigir a nossa vida. Quando compreendemos os nossos próprios limites, deixamos de viver para corresponder às expectativas alheias e começamos a construir uma existência mais autêntica.

 

Dizer “não vou” não é, necessariamente, um gesto de rejeição.

 

Pode ser um profundo ato de amor-próprio.

 

Pode ser inteligência emocional.

 

Pode ser respeito pelos próprios limites.

 

Pode ser a decisão de proteger aquilo que nenhuma oportunidade pode devolver: a paz interior.

 

A sociedade costuma premiar quem está sempre disponível, mas raramente fala sobre o preço invisível dessa disponibilidade permanente: exaustão, ansiedade, perda de identidade e desconexão consigo mesmo.

 

Existe uma liberdade extraordinária quando compreendemos que nem toda ausência representa uma perda.

 

Às vezes, a maior conquista acontece exatamente no lugar onde escolhemos não estar.

 

Há reuniões das quais a sua ausência preserva a sua dignidade.

 

Há discussões das quais o seu silêncio protege a sua saúde mental.

 

Há festas onde a sua paz vale mais do que qualquer fotografia.

 

Há negócios que custariam a sua integridade.

 

Há amizades cuja distância se torna o tratamento mais saudável.

 

A maturidade emocional não se mede pela quantidade de lugares que frequentamos, mas pela sabedoria de discernir onde a nossa presença floresce e onde ela apenas sobrevive.

 

Existe paz em não ir.

 

Existe força em não insistir.

 

Existe inteligência em saber recuar.

 

Porque, no fim, a vida não recompensa quem esteve em todo lugar.

 

Ela recompensa quem soube escolher os lugares que também escolhiam a sua alma.

 

Nem toda oportunidade é uma bênção.

 

Nem toda presença é necessária.

 

E nem toda ausência significa desistência.

 

Às vezes, a paz começa exatamente no momento em que você decide que já não precisa estar onde perdeu a si mesmo para agradar os outros.

 

Elizandra Santos

E-mail: geral@elizandrasantos.com

Instagram

@ellizandra_santoos

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