Houve um tempo em que estar sozinho parecia um castigo.
O silêncio incomodava. A casa vazia parecia maior. Os dias tinham espaços demais entre uma coisa e outra, e era justamente nesses espaços que os pensamentos apareciam, aqueles que a pessoa passa tanto tempo a tentar evitar.
Então, por muito tempo, eu tentei fugir de mim.
Preenchi os vazios com pessoas, conversas, distrações, compromissos. Qualquer coisa que impedisse o silêncio de chegar. Porque, quando tudo ficava quieto, eu precisava ouvir a única voz da qual eu não conseguia escapar: a minha.
Até que um dia eu parei de lutar.
Sentei comigo.
E, pela primeira vez, em vez de perguntar “quem vai ficar?”, perguntei: “quem sou eu quando ninguém está olhar?”
Foi estranho no começo.
Comecei a perceber coisas que não queria enxergar. Medos que escondia até de mim. Feridas que fingia não sentir. Cicatrizes que ainda doíam quando tocadas. Percebi também minhas contradições, minhas inseguranças, meus erros e todas aquelas partes de mim que eu julgava serem difíceis demais para serem amadas.
Mas, dessa vez, eu não fui embora.
Fiquei.
Escutei o que eu tinha a dizer.
Comecei a olhar para mim com menos cobrança e mais curiosidade. A entender meus processos, minhas reações, meus limites. Aprendi que algumas versões minhas não precisavam ser odiadas, apenas compreendidas. Que certas dores não precisavam ser escondidas, precisavam de acolhimento.
E, pouco a pouco, comecei a me abraçar onde antes eu só sabia me criticar.
Descobri que conhecer a si mesmo é uma espécie de reencontro.
Quanto mais tempo passei comigo, mais aprendi a ter paciência com quem eu sou. E, curiosamente, quanto mais paciência desenvolvi comigo, mais empatia comecei a ter pelos outros.
Foi então que percebi que estar sozinho e sentir solidão não são necessariamente a mesma coisa.
A solidão pede que alguém venha preencher o espaço.
A solitude ensina que aquele espaço também pode ser seu.
No começo, parecia que eu estava sozinho.
Depois, entendi que eu estava apenas aprender a reconhecer a minha própria presença.
E hoje, quando o silêncio chega, já não sinto tanta necessidade de fugir.
Eu fico.
Porque descobri que existe uma diferença enorme entre estar sozinho e estar abandonado.
Às vezes, estar sozinho é justamente a oportunidade de finalmente voltar para casa.
Para dentro de si.
E quando você aprende a gostar da sua própria companhia, o mundo deixa de ser um lugar onde você procura alguém para completar aquilo que falta.
Você passa a escolher quem caminhará ao seu lado, não por medo de ficar sozinho, mas porque já descobriu que, mesmo quando todos vão embora, você ainda tem a si mesmo.
E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de amor:
olhar para tudo o que você é, inclusive aquilo que ainda está a tentar curar, e dizer:
“Eu fico.
Eu te escuto.
Eu te aceito.
Eu cuido de você.”
Porque, no fim, aquilo que um dia pareceu solidão pode se revelar como uma das melhores companhias que você poderia ter encontrado:
você.
Elizandra Santos
E-mail: geral@elizandrasantos.com







