Ao longo da vida, todos somos confrontados com momentos que põem à prova a nossa
capacidade de continuar. Perdas, fracassos, desilusões e erros fazem parte da experiência
humana. O que verdadeiramente nos distingue não é a ausência dessas dificuldades, mas a
forma como decidimos lidar com elas.
Uma história que me marcou
Há alguns meses acompanhei uma pessoa que, depois de ver fracassar um investimento no
qual tinha depositado grandes expectativas, começou a fechar-se sobre si mesma. Aos
poucos, deixou de acreditar nas suas capacidades, passou a olhar para o futuro com
pessimismo e mergulhou num estado depressivo ligeiro. (Caso anonimizado.)
Durante o processo terapêutico, tornou-se evidente que a dor causada pelo fracasso não
era o único problema. O que mais alimentava o seu sofrimento era a forma como se via:
alguém derrotado, incapaz e injustiçado pela vida.
À medida que o trabalho avançou, algo mudou. A dor não desapareceu de um dia para o
outro, mas a relação que aquela pessoa tinha com o próprio sofrimento começou a
transformar-se. Deixou de sentir autopiedade e aprendeu a olhar para si com compreensão,
respeito e humanidade. Foi aí que começou a recuperar.
Esta experiência recordou-me uma ideia simples, mas profundamente transformadora:
sentir pena de nós próprios não é o mesmo que praticar autocompaixão.
Quando a dor se torna identidade
Sentir autopiedade é permanecer preso ao sofrimento. É olhar para as dificuldades como se
elas definissem quem somos. Surgem então pensamentos como “porque é que isto só me
acontece a mim?”, “não sou capaz” ou “a minha vida nunca vai mudar”. Sem nos
apercebermos, passamos a ocupar o lugar de vítima da nossa própria história.
É natural sentir tristeza depois de uma perda ou de um fracasso. O problema não está na
tristeza. Começa quando deixamos que ela se transforme na forma como olhamos para nós
próprios.
O caminho da autocompaixão
A autocompaixão segue outro rumo. Ser autocompassivo não significa desculpabilizar os
erros, desistir dos objetivos ou conformar-se com as dificuldades. Significa reconhecer o
sofrimento sem lhe acrescentar uma camada de julgamento e dureza. É tratarmo-nos com a
mesma compreensão que ofereceríamos a um amigo em dificuldade.
A psicóloga Kristin Neff, uma das principais investigadoras nesta área, descreve-a através de
três componentes:
• Auto-bondade: tratar-nos com gentileza, em vez de nos criticarmos de forma severa;
• Humanidade comum: reconhecer que errar, falhar e sofrer fazem parte da condição
humana e não nos isolam dos outros;
• Atenção plena: observar a dor tal como ela é, sem a negar nem a exagerar.
O custo de não a cultivar
Quando esta capacidade não é desenvolvida, é frequente vivermos sob pressão constante.
Tornamo-nos excessivamente críticos, exigimos perfeição em tudo o que fazemos, sentimos
culpa por qualquer erro, temos dificuldade em aceitar elogios, escondemos as nossas
fragilidades e acreditamos que nunca somos suficientemente bons.
Vivemos cansados detentar corresponder a expectativas que, na maioria das vezes, nós próprios criámos.
A investigação científica tem mostrado, de forma consistente, que as pessoas com níveis
mais elevados de autocompaixão apresentam maior resiliência emocional, menor
probabilidade de desenvolver sintomas de ansiedade e depressão e maior capacidade de
aprender com os próprios erros. Não porque sofram menos, mas porque deixam de
transformar o sofrimento numa identidade.
Em linha com esta ideia, o estudioso tibetano Thupten Jinpa sublinha que a autocompaixão
nos permite reconhecer as nossas falhas com paciência, compreensão e bondade, sem
ficarmos prisioneiros delas. Essa atitude conduz-nos a uma visão mais realista da vida e
aproxima-nos dos outros, em vez de nos isolar.
A diferença que importa
Talvez seja essa a maior diferença entre a autopiedade e a autocompaixão.
A autopiedade faz-nos acreditar que somos definidos pelas nossas quedas.
A autocompaixão lembra-nos que somos sempre maiores do que elas.
Por isso, quando a vida nos colocar diante de um fracasso (e mais cedo ou mais tarde isso
acontecerá), permitamo-nos sentir a dor, mas não façamos dela a nossa morada. Acolhamo-
nos com honestidade, aprendamos com o que aconteceu e sigamos em frente.
Porque ninguém cresce por nunca cair.
Cresce-se pela forma como se escolhe levantar.







