Como estamos vivendo o mundo?
Quando calçamos uma meia e olhamos para os nossos pés, vemos um acabamento quase perfeito. Por fora, tudo parece bonito, organizado e confortável.
Mas existe um detalhe que quase não percebemos: para que a meia fique bonita por fora, precisamos suportar as costuras por dentro.
E, de certa maneira, fazemos isso também na vida.
Aprendemos a conviver com desconfortos como se fossem normais. Muitas vezes, suportamos aquilo que nos incomoda para atender às expectativas dos outros, agradar, corresponder ou provar alguma coisa.
No esporte, isso acontece com frequência.
O atleta pode esconder o medo de errar para não decepcionar o treinador ou os pais.
O pai pode esconder suas próprias angústias para tentar demonstrar segurança ao filho.
O profissional pode suportar uma rotina que o adoece porque acredita que precisa corresponder às expectativas do mercado.
Por fora, tudo parece bem. Por dentro, as costuras incomodam.
E se virássemos a meia do avesso?
E se tivéssemos coragem de olhar para aquilo que realmente nos incomoda e escolhêssemos cuidar de nós mesmos, mesmo que isso provocasse estranhamento ou julgamento?
Talvez, no início, alguém pudesse perguntar:
“Por que você está usando a meia desse jeito?”
Mas talvez a pergunta mais importante fosse:
“Como você está se sentindo?”
Nem sempre o problema está na posição da meia.
Às vezes, está na falta de liberdade para escolher como queremos calçá-la.
No esporte e na vida, conhecimento gera consciência, e consciência amplia a possibilidade de escolha.
Pais, atletas e profissionais do esporte não precisam viver apenas para atender expectativas.
Precisamos aprender a reconhecer nossas necessidades, respeitar nossos limites e fazer escolhas mais conscientes.
Porque cuidar da saúde mental também é isso:
ter coragem para virar a meia do avesso quando as costuras estão machucando por dentro.
E talvez, a partir dessa escolha, a jornada possa se tornar um pouco mais leve.
(Isso nunca será sobre meias)
Anderson do Prado
Psicanalista
@pinducaprado







