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O Ataque Cibernético Não Começa no Sistema. Começa na Negligência.

Ontem, Angola parou.

 

O ataque cibernético à Unitel interrompeu serviços, criou transtornos, gerou insegurança e obrigou milhares de pessoas a procurarem alternativas. Era inevitável. Quando um sistema essencial falha, todos sentem as consequências.

 

Mas o que mais chamou a minha atenção não foi o ataque em si.

 

Foi a velocidade com que muitas pessoas abandonaram uma empresa que, desde 2001, construiu uma história de permanência, inovação e liderança no mercado. Bastou um momento de vulnerabilidade para que muitos corressem imediatamente para a concorrência, como se uma trajetória inteira pudesse ser anulada por um único episódio.

 

E foi então que percebi que talvez esta história não fale apenas sobre uma operadora de telecomunicações.

 

Talvez ela fale sobre nós.

 

Na psicanálise, aprendemos que o ser humano possui uma extraordinária capacidade de negar os sinais de desgaste. Freud descreveu a negação como um mecanismo de defesa: sabemos que algo não está bem, mas preferimos agir como se não soubéssemos. Ignoramos os pequenos avisos até que eles deixem de ser pequenos.

 

A verdade é que ninguém entra em colapso de um dia para o outro.

 

Os colapsos são silenciosos. São construídos lentamente.

 

Quantas vezes a tua mente sofreu um “ataque cibernético” e tu ignoraste os sinais? Ansiedade, insónia, irritabilidade, tristeza constante… tudo parecia apenas cansaço. Afinal, era apenas mais um dia. Até deixar de ser.

 

Quantas vezes o teu corpo enviou notificações que preferiste silenciar? A dor tornou-se rotina. O esgotamento foi romantizado. O descanso passou a ser visto como fraqueza.

 

Quantas vezes o teu casamento pediu presença, escuta e cuidado, e respondeste: “Depois conversamos.” Até que um dia o ataque chegou sob a forma de uma frase devastadora:

 

“Já não quero mais. É melhor divorciarmo-nos.”

 

E, de repente, aquilo que parecia inesperado era apenas o resultado de uma longa sequência de negligências.

 

Quantas vezes sacrificaste a tua família acreditando que o dinheiro resolveria tudo? Trabalhaste para oferecer uma vida melhor, mas esqueceste de oferecer a tua presença.

 

Até que um dia percebeste que os teus filhos já não te procuravam. Que a intimidade tinha sido substituída pela distância. Que o segurança da casa conhecia melhor as rotinas deles do que tu.

 

Nenhuma conta bancária consegue comprar o tempo que deixou de ser vivido.

 

Quantas vezes fizeste do teu corpo um palco para provar a tua masculinidade? Relações sem limites, validação constante através da conquista, uma necessidade insaciável de confirmar o próprio valor.

 

A psicanálise chama a isso narcisismo: quando o desejo deixa de ser encontro e passa a ser apenas uma tentativa desesperada de preencher um vazio interno.

 

Até que o corpo, cansado de sustentar uma imagem, apresenta o sintoma. E a impotência deixa de ser apenas sexual; torna-se também emocional, afectiva e existencial.

 

O sintoma nunca aparece para destruir.

 

Ele aparece para revelar aquilo que já estava em sofrimento.

 

Vivemos preocupados com os ataques externos: a concorrência, as crises económicas, as redes sociais, as dificuldades da vida.

 

Mas esquecemo-nos de fortalecer o nosso sistema interno.

 

O problema nunca é apenas o ataque.

 

É a vulnerabilidade que acumulámos enquanto fingíamos que tudo estava bem.

 

Na linguagem psicanalítica, aquilo que evitamos escutar regressa sob outra forma. O que não é elaborado transforma-se em sintoma. O que não é cuidado acaba por exigir reparação através da dor.

 

Talvez por isso a pergunta mais importante não seja:

 

“Por que isto aconteceu comigo?”

 

Mas sim:

 

“Há quanto tempo eu deixei de cuidar de mim?”

 

Quando foi a última vez que fizeste terapia?

 

Quando foi a última vez que tiveste coragem de olhar para dentro, antes que a vida te obrigasse a fazê-lo?

 

Negligenciar o teu maior ativo, a tua saúde mental, emocional, física e relacional, pode fazer colapsar todo o sistema que sustenta a tua existência.

 

Nenhuma empresa cresce sem investir em segurança.

 

Nenhuma vida permanece saudável sem investir em autoconhecimento.

 

Porque, no fim das contas, os maiores ataques quase nunca chegam de surpresa.

 

Eles apenas encontram um sistema que, há muito tempo, deixou de ser cuidado.

 

Elizandra Santos

E-mail: geral@elizandrasantos.com

Instagram

@ellizandra_santoos

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